sábado, 27 de março de 2010

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Realidades Ficticias III

quinta-feira, 25 de março de 2010

Realidades Ficticias II



A madrugada quente fazia com que o plantao no hospital-escola se arrastasse. Tranquilo demais para uma maternidade, pensou. Apenas duas pacientes em trabalho de parto e um recem-nascido sendo amamentado.
A chegada de uma jovem de pouco mais de vinte anos mudou a atmosfera. Ela tinha febre e um sangramento forte. Estava completando o quarto mes de gravidez e era a quarta entrada na emergencia nas ultimas oito semanas. Da primeira vez o sangramento foi provocado por uma queda. "No morro de onde venho, muita escadaria, muita escadaria como aquela, dai escorreguei", relatou.

Na segunda vez, ingeriu um cha bem forte feito com talos de mamona. Uma senhora que conhecia ervas garantiu que era tiro e queda. Mas a gravidez persistia. Fortes colicas e muitas contracos a levaram de volta para a emergencia e dias depois de ir para casa, estava de volta. Dessa vez o cha tinha sido feito com talos e sementes de maconha. Novas dores e novo atendimento. O medico que a atendeu passou-lhe um sermao. Nao podia continuar insistindo em fazer mal a si e ao feto.

Na quarta tentativa, agrediu seu colo do utero com um prego. Enferrujado. O desespero em ocultar a gravidez do pai religiosamente severo motivou a atitude insensata. " Ele me mata quando souber que tem uma filha perdida", justificou. A interrupcao da gravidez foi inevitavel. Se ela fosse de classe media, teria procurado uma clinica clandestina de aborto, e o teria feito com as minimas condicoes de higiene, mas essa era uma realidade muito distante.

"Mesmo sendo contra o aborto, a legalizacao do mesmo e uma questao de saude publica", foi a resposta que deu ao colega que noticiou a morte da jovem, dias depois. Ela nunca tinha sido vacinada contra tetano. Sucumbiu aos vinte e um anos, completados no inverno de 1992.


Realidades Ficticias I



Ele tinha 17 anos, ela 16 e o namoro havia completado o primeiro aniversario em 1987.
Telefonou para ele bastante aflita, marcando encontro para o dia seguinte apos as aulas. Dava para perceber que o assunto era grave, mas ela recusou dizer do que se tratava. Uma noite de especulacoes. Acho que ela vai terminar o namoro, dizer que conheceu alguem, coisas do tipo.

Dificil concentrar na aula de matematica pensando que vai levar um fora.

Horas que se arrastam, recreio interminavel, lanche entalado na garganta. Muito refrigerante para fazer descer o "bate-entope".

O sorriso largo e habitual fora substituido por um semblante serio e cinzento. De longe ja dava para perceber que os beijinhos estavam fora do cardapio...

Ela disparou logo que a menstruacao estava atrasada. Mas voce tem certeza, indagou, fez o teste da farmacia? Ela nao tinha tido coragem. Conversou com uma amiga no colegio, iria fazer naquela tarde... Ele comecou a rir, um riso que lhe escapava dos labios, completamente nervoso. Ela transbordou descontrole, dando leves socos em seu peito e o acusando de fazer chacota num momento de grave aflicao. Mas o que podemos fazer?, perguntou. Ele sabia que um aborto estava fora de cogitacao para os dois.

Fora um alarme falso. Se a gravidez tivesse sido confirmada, o filho ou filha estaria hoje com 22 anos e suas vidas seriam totalmente diferentes. Ele nao teria abandado a faculdade de
medicina no quinto ano para fazer teatro, provavelmente. Talvez ainda estivessem juntos. Ou nao.
O fato e que o namoro nao completou dois anos. Seus desejos eram conflitantes...